Liberdade com responsabilidade

escolhaA liberdade é um direito garantido em quase todas constituições do mundo e faz parte do desejo de cada cidadão.

O que é liberdade? Na atualidade, a ideia de liberdade é defendida de forma exagerada, chegando mesmo ao extremo da irresponsabilidade. Liberdade no conceito contemporâneo é poder tomar suas próprias decisões, viver em função de sua própria moralidade, ser seu próprio referencial ético. Na própria constituição brasileira, liberdade é direito de poder ir e vir sem que nada o interpele.

Acontece que nosso culto pela liberdade chegou a um ponto que estamos disposto a fazer qualquer coisa que nos faça garantir esse direito. Qualquer ameaça a este direito, somo capaz da guerra. Assim, chegamos a um individualismo. Meus direitos, não podem ser violados e Minha liberdade não pode ser tomada, não importa até onde devo ir para garanti-la. Não estamos dizendo que não seja de direito a reivindicação de tais leis. O movimento feminista, os homossexuais, os afros descendentes, os índios, os estrangeiros etc. A todos são garantidos direitos e liberdade. Logicamente que reconhecemos por meio da história os grandes prejuízos causados à dignidade humana, como aos índios, aos negros escravizados, a mulheres, crianças etc.

Agora, o que reivindicamos e procuramos assegurar como bem maior, nossa liberdade, deve ser observada com novo olhar, pois não é questão de re-significar o conceito, mas pelo contrário, é voltar ao real conceito que tínhamos antes, que já garantia um modelo ético, tanto coerente com a vida social de antes, como para o modelo atual social, político, econômico e religioso.

Hoje, a defesa ao direito a liberdade, se faz hoje, um culto em torno dela, ao ponto mais expressivo desta busca e culto, chegasse ao individualismo.

Para os estóicos, a liberdade está na aceitação de tudo aquilo que a vida nos dar. Ser livre é aceitar e aproveitar tudo que ela nos proporciona, não tomando nada em prejuízo de si, mas como algo positivo a vida humana, sempre encarando como algo bom, no fim.

Em Rousseau, a liberdade está no “bom selvagem”. Todos os homens, em seu estado natural é bom. Ele é livre para ir e vir, não devendo existir domínio e opressão, mas como essa liberdade não é possível em sociedade, já que cada um poderá usar de sua liberdade sempre em benefício próprio e, com isso, incorrendo o risco de afligir o direito do outro, criando assim a necessidade de cada qual proteger sua propriedade, a sociedade se organizou e se articulou deixando de abrindo mão de seu estado natural (bom selvagem) e parte de sua liberdade, para por fim garantir o direito de todos.

No existencialismo de Sartre, a liberdade nos leva a responsabilidade e que somos “condenados a ser livres”.

Para Zenão, fundador do estoicismo, para ser feliz era preciso viver com indiferença (gr. ataraxia). Para os estóicos, a indiferença é a chave para a felicidade ou liberdade.

O sofrimento advinha do apego as coisas materiais, assim é feliz aquele que vive de maneira indiferente as coisas materiais e a realidade humana. Há uma realidade maior que guia todos as acontecimentos, a do Logos. Este é a natureza que nos cria, nos acolhe. Viver apenas com base na realidade que nos cerca é não aceitar apenas parte da realidade que nos cerca.

Para os estóicos, viver de modo livre não era viver segundo as paixões, ambições, desejos, pois tudo que é externo a nós não pode nos fazer felizes. Colocar nossa felicidade nos desejos é ilusório pois a realidade sensível é falsa.

Para os estóicos, se tudo é fugaz, não vale a pena sofrer por aquilo que é transitório, pois a verdadeira liberdade está, em não se apegar as coisas externas, uma vez também que elas deixarão de existirem. A razão, nos estóicos, deve sobrepor a emoção, buscando aquilo que é de real valor a felicidade. Isso sim, é ético, real, verdadeiro, racional. Liberdade, felicidade e ética estão intimamente relacionados.

O que é livre para os estóicos? É aquele que não sente a necessidade de nada, pois ele mesmo já é parte da natureza.

Conta-se que certo dia, o rei foi visitar Zenão. O rei ao chegar a ele, o encontrou sentado debaixo de um sol escaldante. Sabendo o rei que ele não tinha nada, lhe disse: “Zenão, você é um homem muito sábio e sua sabedoria nos tem nos ensinado muito. Diga, o que deseja? Me faça um pedido e logo lhe será feito.” Zenão, então respondeu: “Que saia da frente do meu sol”.

Liberdade para os estóicos é aceitar a vida, conformasse com a realidade dela, conforme a natureza. Isso era ser ético.

A razão para os estóicos estava em primeiro lugar, a emoção em segundo plano.

Liberdade hoje é poder de compra. Quem pode mais, compra mais, usa mais, lucra mais e gasta mais. Liberdade hoje é poder fazer o que quer, sem limites. Para os estóicos, isso jamais seria visto como liberdade, pois liberdade é saber aceitar a vida, saber viver com o que se tem e não buscar cada vez mais satisfazer suas vontades de forma egoísta e hedonista. A moderação é justamente o que faz falta, na atual noção de Liberdade.

Rousseau foi de importante contribuição a um conceito de liberdade inexistente hoje. Para o filósofo, o homem só pode ser livre se ele abrir mão de sua liberdade individual, em prou de uma sociedade justa, pois dentro de uma sociedade egoísta e individualista, a liberdade é ilusória. O valor ético aqui, é da responsabilidade coletiva (veremos ainda).

É de conhecimento de muitos a máxima de Rousseau, que diz: “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”. E se conclui que, para Rousseau, o homem no estado “selvagem” ou seja, no estado de natureza, o homem é bom, enquanto fora da civilização, porém, em sociedade, o homem se perverte e torna-se mau, pois uma vez em sociedade, surge as adversidades, disputas e rivalidades, tudo isso em defesa de sua propriedade. Cada qual buscando guardar o seu direito a propriedade. O antes, no estado natural, não havia direito a propriedade, agora, cada um deve lutar em defesa de seu patrimônio.

A sociedade então se divide em dois gêneros: 1) aquele que tem; 2) aqueles que não tem. Os que tem procura guardar-se daqueles que não tem, tomarem suas posses. Por isso, o medo será imposto e propriedade guardado a ferro e fogo. Os que não tem nada, desejam ter alguma coisa e com isso também tornam-se cobiçosos, ambiciosos, voltando-se contra uns aos outros, tentando conquistar o que, no estado natural, era de todos.

Para encerrarmos a questão da liberdade, tomamos agora o pensamento de Jean-Paul Sartre. Este não defende uma natureza boa, como para Rousseau, nem racional, como para os estóicos. Para Sartre, o homem é a medida de todas as coisas, pois o homem é responsável pelo que constrói. É ele a medida de todas as coisas e responsável pelo por suas escolhas. Ser livre assim, não é somente fazer o que se quer, mas sim, assumir a responsabilidade pelo que se faz, assumindo a responsabilidade pelo que fazemos a nós e aos outros.

Os jovens, em especial, tomam uma liberdade totalmente desprovida de responsabilidade. Acham-se auto-suficientes de suas vidas de maneira que excluem até os pais, pois como eles costumam dizer em gíria, “sai de minha aba”.

Querem toda o direito e liberdade para fazer o que quiserem ignorando as conseqüências posteriores e, como é de nossa experiência, não são muito bons em assumir responsabilidade. No primeiro momento de dificuldade, procuram culpados no qual possa jogar a responsabilidade.

Para não alongarmos neste artigo, deixamos claro que a liberdade tem seus limites e, o limite é a responsabilidade pela liberdade do outro ou melhor, a responsabilidade pelo outro.

São Paulo

Paulo Filoteus

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