A Igreja pode usar da política para reger e intimidar os homens a andarem retamente?

images (1)Por Paulo Filoteus

Para Santo Agostinho (354-430), que viveu o período no fim da Igreja primitiva(antiguidade), na sua obra, A Cidade de Deus, ele trata do tema “A cidade de Deus” e “A cidade dos homens”. Para ele, não deve ser entendido como um mesmo plano (Igreja & Estado), mas uma coexistência entre os dois planos de existência na vida de cada um. Ou seja, “todos, cristãos e não cristãos, têm uma dimensão que se refere à sua história natural, à moral, às necessidades materiais e que diz respeito a tudo que é perecível e temporal (terreno)”(ARANHA, p.200) e, outra, uma dimensão celeste, a comunidade dos Cristãos, a Igreja, que segue a lei do amor e da fé.

Chegando a Idade Média, coube ao estado intimidar os homens a reprimirem seus descontroles das paixões e, posteriormente, converter a fé dos homens. Com esta atitude, se deu a maior vergonha da história da Igreja: Inquisição. Depois mobilizou homens, dentro da Igreja, a censurar a própria Igreja, dentre os quais destacamos: Erasmo de Hoterdan (Elogio a loucura) e John Locke (Carta sobre a tolerância).

A igreja e o estado gozava de uma estreita relação política e moral que, pela força da educação (política e religiosa) persuadia e criava um ambiente em que todos aceitavam, mesmo com descontatamento. O governante era um homem “justo”, que conseguia, muitas vezes pelo medo, obrigar os homens á obediência aos princípios moral da fé, coadunando num propósito moral cristão. Porém, o estado é de natureza secular e temporal, voltado as necessidades físicas e mundanas e, a Igreja, de natureza celeste, é voltada aos interesses da alma, guiando-as a uma verdadeira religião.

Para São Bernardo de Claraval, no século XII, esses dois poderes (Igreja & Estado), são as duas espadas que se confrontam, entre o espiritual e o temporal. Cabe ao rei cuidar dos corpos e a Igreja o cuidado das almas, sendo a segunda superior a primeira e esta, não devia poupar nenhum daqueles que cometiam delitos contra a moral cristã (tal como hoje se pretende), este poder podia até atribuir punição aos ofensores da moral cristã. Se fosse um rei, o ofensor, ele poderia até ser destituído, o que era possível na medida que o papa o excomungasse e até desobrigava os fieis a dever qualquer fidelidade a ele.

Algo assim aconteceu, quando o papa Gregório VII combateu as investidas dos bispos pelo poder político. Proliferava um hábito dos reis em distribuir igrejas conforme suas conveniências e quando Henrique IV enfrentou o papa Gregório VII, este o ameaçou com a excomunhão, obrigando-o a implorar pedindo perdão por três dias, humildemente descalços, às portas do castelo papal de Canossa. Tem mais outras histórias, mas no espaço aqui, fica muito extenso.

Com o tempo, a tensão entre os dois poderes assumiu diferentes expressões e se confundido nos seus papeis. John Locke, denunciava:

Mas que toda a jurisdição do magistrado diz respeito somente a esses bens civis, que todo o direito e o domínio do poder civil se limitam unicamente a fiscalizar e melhorar esses bens civis, e que não pode ser de modo algum estendido à salvação das almas…(…) “mostraremos que não cabe ao magistrado civil o cuidado das almas, nem tampouco a quaisquer outro homens. (Locke, p.5)

Para Locke, cada uma cumpre o seu papel. Uma das coisas terrenas (política) e outra das questões do céu (Igreja).

É função do magistrado (autoridade política) dar ordens por decreto e compelir pela espada. Afirmo, pois, que o poder civil não deve prescrever artigos de fé, ou doutrinas, ou formas de cultuar a Deus, pela lei civil. (Locke, p.6)

O que os pastores deputados (políticos) deste Brasil deveriam saber, em especial o deputado federal Marcos Feliciano, que diz possuir o título de doutor em Filosofia Cristã, é que o estado, por meio da política, deve zelar pelos direitos dos cidadãos e dos seus bens e cabe somente à igreja as questões de fé. A moral da qual, a igreja, por meio das leis civis, deseja implantar em nome da fé cristã, não pode converter as almas dos homens, quando no máximo, os obrigam a coagir pela força.

O fato é que vemos a tentativas de supostos líderes evangélicos, que desejam coagir pela força política, moral e religiosa (em nome da fé alheia que difere da do Cristo), o não desvio cristão da sociedade. Diz Locke que “se as penalidades são aplicáveis, obviamente são fúteis e inadequadas para convencer o espírito”.(ibidem)

Não se muda as pessoas por meio de leis, quando no máximo, se pune e enquanto a igreja tentar ser coerciva, de forma externa, não passará de tentativas totalista e autoritária, até porque, “não parece que Deus tenha delegado autoridade a um homem sobre outro para induzir outros homens a aceitarem a sua religião” (Locke).

Atenção a todos os legalistas de plantão. A verdade é imputada no coração e não na racionalidade da mente, pois um é saber que o fumo faz mal e outra é querer deixa-lo. Acredito que a palavra de Deus  pode alcançar o coração do homem, agora quando ela é substituída pelo poder das leis civis, estará mirrada sua eficácia.

Pense agora, qual sentido tem um magistrado implantar leis em nome da fé?

08/03/2013

São Paulo

Bibliografia: ARANHA, M.L. DE A. Filosofando: Introdução à filosofia. 2º ed. Moderna/ São Paulo. 1997. p.200-2001; JOHN LOCKE. Carta sobre a tolerância. (Os Pensadores). Abril/São Paulo, 1978. p. 5-6.

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Um pensamento sobre “A Igreja pode usar da política para reger e intimidar os homens a andarem retamente?

  1. Com muito pesar no coração, eu tenho visto muitos líderes evangélicos, tentando criar (forçosamente), um modelo de sociedade que esteja de acordo com os “ideais bíblicos destes líderes”; ou seja, estão plantando uma intolerância com relação a todo o comportamento que não seja compatível com os preceitos bíblicos, como se todos nós tivéssemos de reprovar todo comportamento contrário ao modelo bíblico…. Por exemplo, eu posso não concordar com o homossexualismo, mas eu tenho a obrigação de respeitar a escolha e o espaço daqueles que são homossexuais… Da mesma forma, eu posso não fazer parte da religião afro-brasileira, mas tenho a obrigação de respeitar todos os adeptos de outras religiões, inclusive, as afro-brasileiras… Quando digo respeitar, não quero dizer concordar, mas me refiro ao direito de todos poderem fazer as suas próprias escolhas, tanto no campo religioso, quanto na conduta sexual…. SÓ HÁ LIBERDADE NUMA SOCIEDADE, QUANDO EXISTE RESPEITO AO ESPAÇO ALHEIO… É ISSO…

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